Grito

Esperei até as horas formarem a sua sentença e me condenarem para sempre ao limbo perpétuo. Se tudo ao menos fosse claro e fácil de explicar, de exprimir e de revelar e não guardássemos arquivos pesados como nanadas de elefantes nas nossas entranhas, a acumular pó, a roubar-nos o brilho dos olhos e a sugar gotas do nosso sangue. O presente é feito de um pedaço do que já fomos do passado, é um caos desordenado de um futuro possível que ainda não teve lugar, de tudo o que não conseguimos entender mas que podemos antever talvez de forma intuitiva e espontânea.
Enquanto estamos vivos, a lei da gravidade prende-nos e sufoca-nos, em cada respiração assoma o sabor da mortalidade e a dor da nossa condição imperfeita e errática. Falhar e sofrer são quase sinónimos de ser humano porque acontecem sumáriamente ao longo da nossa vida, mesmo quando não damos por isso. Mesmo quando não queremos racionalizar e nos esforçamos por dizer que está tudo bem e que não temos nenhum problema. A verdade é que não haverá nenhum milésimo de segundo em que não tenhamos problemas e que seja necessário de nós competências suficientes para o resolver, coragem para os encarar e força para os enfrentar de frente, olhando-os tal como eles são. Por vezes é preciso adormecer o medo, cantar-lhe uma canção de embalar e guardá-lo na gaveta como uma fotografia antiga e manchada que já não importa mais recordar. Só assim conseguimos arriscar dar um passo em frente mesmo sabendo que podemos falhar.
As escolhas aparecem-nos perante os olhos como bifurcações no fundo de uma estrada, pedindo-nos que tomemos uma decisão, independentemente dos motivos que nos levam a tal. A questão não é quem somos, é como nos podemos tornar quem queremos ser. Adoecemos de ansiedade, de cansaço, de medo sufocante, de terror, de mágoa. Cada sonho acalentado implica o risco de cair na desilusão e nem toda a fé do mundo pode garantir um final feliz a uma história que esteja destinada a acabar, por este ou aquele motivo. Tudo é um jogo cujas consequências temos de aceitar, quando nos esmagam as esperanças só nós ficamos para apanhar os destroços do que ficou. Do que faltou ser e fazer. E temos a missão de coser de volta cada fragmento do nosso coração com todo a paciência e com todo o amor que o levou a dar-se e a sonhar em primeiro lugar. A causa torna-se a salvação, na mágoa esconde-se uma benesse para quem a quiser ver.
Quando não temos voz para dizer uma palavra que seja e o nosso sorriso é uma máscara que esconde um interior em ruínas não podemos permanecer nessa posse em que cada riso é falso e oculta uma lágrima. Temos de procurar quem possa falar por nós e ajudar a que a nossa voz interior de alguma forma se expresse e venha à tona para ser entendida e aceite, como a entidade pura e humanamente válida que é e sempre irá ser. Quem possa dar um elemento de ressonância, de reforço, de chegada a um porto seguro ao nosso grito.

Edvard Munch O Grito (1893)

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O talento de Mira

As cicatrizes das famosas

A história de Marla