Das provações


Numa realidade utópica nunca precisaríamos de competir e preocupar-nos horas a fio. Teríamos quem nos dissesse que somos importantes, um apoio silencioso e infalível em todas as etapas a enfrentar.
Não haveria a necessidade de procurar, fustigados pela chuva e frio como baratas tontas porque tudo o que precisamos já estaria contido há muito tempo nos alicerces da nossa existência: adornado-a de mel, cheia de potencialidades e de brilho. 
Contrariamente ao que seria desejável, nem sempre avançados pela senda que era suposta; às vezes fazemos milhares de quilómetros na direcção oposta e ficamos no sítio errada, à hora errada, com a má sorte, ímpia, a olhar-nos do alto. Porém, aonde quer que vamos, uma coisa se mantém constante: a nossa busca por uma réstia de humanidade e de misericórdia que nos devolva a possibilidade de sermos livres e que nos adormeça os medos. Que os piores prenúncios nunca se realizem e possamos prolongar a dádiva da vida pelo máximo de tempo possível. Quando as nossas preces são atendidas, ficamos prostados de gratidão, enlevados na nossa pequenez porque o que de mais valioso possuímos não nos foi retirado. Por que apesar de profundamente magoados conseguimos sair relativamente incólumes. 
A dor não permite que fiquemos muito tempo como páginas em branco. A vida ataca-nos, torna-nos como folhas de papel violentamente amassadas. Às vezes enche-nos de amargura, revolta, raiva e de um imenso sentimento de injustiça. Noutras, alivia-nos com sensações miraculosas de paz, serenidade, de uma plenitude que só chega quando percebemos quais são as nossas prioridades, os nossos prazeres. Em suma, o que o nosso coração sonha, as coisas que amamos e como as amamos.
Blaise Pascal escreveu "Todos os homens buscam a felicidade. E não há excepção. Independentemente dos diversos meios que empregam, o fim é o mesmo, a maior criação da vida... a morte". As atribulações porque passamos são talvez uma consequência de não sermos completamente puros e autênticos, por estamos tão de longe de reunir a quinta-essência das virtudes e da perfeição. Os desafios que vão totalmente contra o que esperamos e as tormentas em que batalhamos  ensinam-nos a ser mais felizes; a saber apreciar as pequenas coisas doces da vida que de nada servem se não soubermos reconhecê-las quando as vemos à nossas frente, quando delas podermos usufruir.
Não temos escolha senão viver e procurar ser inteiros na mínima coisa que fazemos; é no presente que todas as coisas acontecem. O velho desaparece para dar lugar ao novo, é o ciclo natural da energia vital, o agente de limpeza que mantem a simplicidade desse movimento de troca e mudança. Só nos resta a hipóteses: evoluirmos ou ser dissolvidos, de conquistar ou ser devorados. No entanto, continuamos a ter a última palavra a dizer na peça de teatro em que desempenhamos o principal papel. Podemos tentar ter uma vida plena e internamente rica e apenas morrer no derradeiro suspiro ou a de sermos derrotada à partida e morrer em vida. Afinal, como reflectiu Margaret Lee Runbeck "A felicidade não é uma estação na qual chegaremos mas sim uma forma de viajar".


Comentários

Mensagens populares deste blogue

O talento de Mira

"Quem sou eu? " de Bhagavan Sri Ramana Maharshi

A história de Marla